Uma boa psicologia exige uma boa antropologia: o que E. Christian Brugger argumentou em 2008 — e por que isso ainda importa
Em 2008, o teólogo moralista E. Christian Brugger proferiu uma aula inaugural no Institute for Psychological Sciences argumentando que as recorrentes falhas da psicologia clínica remontam a um único problema de raiz: a ausência de uma compreensão adequada da pessoa humana. Seu modelo antropológico de oito premissas — ainda em sua 17ª revisão na época — antecipava o arcabouço que a Divine Mercy University viria a formalizar como o Meta-Modelo Católico Cristão da Pessoa. O argumento é mais urgente agora do que quando ele o apresentou.
O problema está a montante
Jeremy Bentham disse-o sem rodeios, e E. Christian Brugger citou-o sem pedir desculpas. "A natureza colocou a humanidade sob o governo de dois senhores soberanos, a dor e o prazer", escreveu Bentham nos seusPrincípios da Moral e da Legislação. O argumento de Brugger, apresentado na sessão de abertura de um seminário de verão do Institute for Psychological Sciences em 11 de agosto de 2008, não era que Bentham fosse excêntrico, mas que era representativo. A premissa utilitarista, argumentou Brugger, "subjaz implicitamente à abordagem da psicologia convencional… em relação à busca da felicidade" e se traduz naquilo que ele chamou de "um modelo eticamente simplista de redução de sintomas".
Trata-se de uma afirmação diagnóstica, não polêmica. Brugger não estava atacando a terapia. Estava identificando onde passa a linha de fratura. Quando uma psicologia é construída sobre o eixo prazer-dor, ela consegue nomear o que é desadaptativo, mas não consegue perguntar se algodeveria ser feito — essa pergunta é posta entre parênteses como moral ou espiritual, e não como psicológica. As consequências práticas são exatamente o que os profissionais do Instituto já observavam: a pornografia avaliada como neutra, a menos que o uso se torne disruptivo; o casamento tratado como presumivelmente dissolúvel; o conceito de gênero à deriva de qualquer referência estável. Essas não são falhas incidentais. Decorrem da premissa antropológica.
A palestra foi a primeira de uma série de seminários no IPS, a instituição de Arlington que mais tarde se tornaria a Divine Mercy University.[^1] Brugger a colocou em primeiro lugar deliberadamente. "Para falar sobre as dimensões mais práticas e empiricamente mensuráveis da vida mental", disse ele, "precisamos ter alguma ideia do sujeito, que é a pessoa humana."
Oito premissas, um sujeito
O documento que Brugger distribuiu aos participantes — ele observou que já estava em sua 17ª revisão — apresentava oito "fatos antropológicos irredutivelmente distintos, mas inter-relacionados, sobre a pessoa humana", que o corpo docente do IPS chamava de domínios. Ele fez questão de dizer que não se trata de mera taxonomia. Cada domínio é um "predicado universal da natureza humana, algo sempre encontrado na natureza humana… sempre presente como parte do conjunto de potências ativas." Compreendê-los não é opcional para um bom trabalho clínico, porque o transtorno mental, conforme Brugger o enquadrou, é uma realidadepsicossomática moldada pela "interação entre corpo, mente e mundo externo." Antropologias parciais geram terapias parciais.
As oito premissas se dividem em dois eixos. Três pertencem à antropologia teológica: a pessoa humana écriada,decaída eredimida. Cinco pertencem à antropologia filosófica, acessíveis sem recurso à revelação: a pessoa écorpórea,interpessoalmente relacional,racional,volitiva esubstancialmente una. Brugger chamou as últimas quatro de "as quatro grandes" porque eram as que mais recorriam nas discussões clínicas do corpo docente.
Essa arquitetura deve parecer familiar a qualquer pessoa que tenha trabalhado com o Meta-Modelo Católico Cristão da Pessoa formalizado por Vitz, Nordling e Titus. As três premissas teológicas correspondem diretamente ao arco Criado-Decaído-Redimido do CCMMP. As cinco premissas filosóficas correspondem ao que o CCMMP trata como os domínios estruturais da natureza humana por meio dos quais a saúde e o transtorno mental se expressam.[^2] O que Brugger apresentou como documento de trabalho em 2008, ainda sendo ajustado e debatido por um corpo docente, o CCMMP publicou como um referencial maduro e referenciado. A genealogia é rastreável.
Criado: pessoas, não organismos otimizando o prazer
Brugger traçou um contraste nítido entre a antropologia de Bentham e o que chamou de abordagem aristotélico-tomista. Onde Bentham define a felicidade como "a evitação bem-sucedida da dor e a obtenção do prazer", Tomás de Aquino a define como "a condução à plenitude das capacidades complexas da natureza humana." A diferença não é mera sutileza filosófica. Ela determina o que o terapeuta trata e o que conta como cura.
A premissa da criação ancora tudo isso. As pessoas humanas são feitas à imagem de Deus, e essa imagem se expressa por meio das quatro grandes: racionalidade, vontade, relacionalidade, corporeidade. Dean Gladys Sweeney, que sucedeu os colegas de Brugger naquilo que se tornou a DMU, expressou o mesmo ponto institucionalmente: a filosofia fundacional é "tratar a pessoa humana como uma unidade integrada de corpo e alma, criada para a relação, a liberdade, a racionalidade e o amor."[^3] A implicação para a terapia é que o florescimento não é ausência de sintomas. Brugger o definiu como "uma condição de boa ordem inter-relacionada em relação a todos os domínios passíveis de serem ordenados."
Essa é a linguagem daÉtica a Nicômaco de Aristóteles — Brugger referenciou explicitamente o Livro I — mas carrega uma carga teológica ausente em Aristóteles. A pessoa não é meramente um ser natural em busca de realização natural. O modelo, conforme Brugger o descreveu, "reconhece que os seres humanos têm não apenas desejos, capacidades e fundamentos naturais para a realização, mas também transcendentes." Qualquer psicologia que ignore o domínio transcendente não simplesmente deixou passar um departamento; identificou erroneamente o sujeito.
Decaído: por que a redução de sintomas não basta
A premissa do decaimento é onde a antropologia de Brugger intersecciona mais diretamente o problema que ele diagnosticou em Bentham. A concupiscência, entendida no sentido tomista como desejo desordenado que arrasta os apetites inferiores contra a reta razão, não é redutível a um sintoma. É uma característica estrutural da natureza humana pós-lapsária. Uma terapia construída puramente sobre a satisfação do desejo não consegue nomear essa desordem como desordem, porque o desejo é sua própria justificação dentro de um quadro utilitarista.
Brugger não usou a palavra concupiscência na palestra, mas a lógica está lá. Ele a ilustrou com o exemplo da pornografia: a psicologia clínica convencional trata o uso de pornografia como neutro, a menos que se torne "desadaptativo", ou seja, disruptivo para os padrões cotidianos. Mas esse enquadramento já pressupõe que a coisa em si é moralmente inerte. Uma antropologia adequada diz o contrário. A capacidade de amor relacional, que pertence ao domínio da relacionalidade interpessoal, é danificada pelo uso habitual de pornografia, haja ou não perturbação externa experimentada pela pessoa. O dano é a um domínio antropológico, não meramente a um padrão comportamental.
É também aqui que a premissa do decaimento do CCMMP realiza seu trabalho mais diretamente clínico. Não se trata simplesmente da afirmação de que os seres humanos pecam. É a afirmação de que as próprias faculdades por meio das quais a saúde mental se constitui — razão, vontade, apetite afetivo, o eu relacional — estão todas sujeitas a uma desorientação real, ainda que não total. Uma terapia que ignore isso interpretará a cooperação com essa desorientação como progresso.
Redimido: o horizonte terapêutico
Brugger foi breve sobre a premissa da redenção nesta palestra, mas sua inclusão no quadro é estruturalmente necessária. Se a premissa da criação estabelece para que serve a pessoa humana e a premissa do decaimento dá conta da desordem real em que as pessoas se encontram, a premissa da redenção fixa o horizonte. A cura é possível, e não é meramente natural. Os atos salvíficos de Deus em Cristo são, na antropologia teológica, parte da descrição do que a pessoa humana agora é: um ser para quem a redenção é uma potência real, e não meramente teórica.
Para a prática clínica, isso significa que o leque de recursos disponíveis a uma pessoa em terapia não se esgota na técnica. Graça, sacramento, oração e as virtudes teologais são antropologicamente relevantes. Não são adornos acrescentados a um plano de tratamento secular; operam nos domínios onde a desordem está localizada. Era esse o ponto de João Paulo II quando convocou os clínicos a unir "a antropologia filosófica e teológica" com "as contribuições indiscutíveis de ciências como a psicologia" — declaração que Brugger citou diretamente e usou para justificar o projeto do IPS como um todo.
As "quatro grandes" e o que a pesquisa contemporânea acrescenta
A ênfase recorrente de Brugger nos quatro domínios filosóficos — corpóreo, relacional, racional, volitivo — antecipa a direção para a qual a literatura empírica mais substancialmente avançou desde então.
Sobre a corporeidade: décadas de trabalho em desenvolvimento neurobiológico, incluindo a trajetória de pesquisa associada ao Modelo Neurosequencial de Bruce Perry, confirmaram que o transtorno psicológico não é meramente cognitivo, mas se registra nos sistemas regulatórios do corpo. O corpo não é um instrumento que a mente usa; é constitutivo do eu. A afirmação de Brugger de que a saúde mental é uma "realidade psicossomática" dispõe hoje de um substrato empírico mais rico do que ele podia citar em 2008.
Sobre a relacionalidade: a pesquisa sobre apego, de Bowlby e Ainsworth em diante, tem mostrado de forma consistente que o domínio relacional não é periférico, mas formativo. O eu se constitui na relação antes de se constituir no isolamento. O trabalho de Gabor Maté sobre dependência reforça o mesmo ponto a partir de outro ângulo: o desejo desordenado frequentemente remonta à privação relacional, e não meramente a uma falha moral individual.
Sobre a racionalidade e a vontade: o quadro da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), desenvolvido por Steven Hayes, oferece um relato secular de como padrões de pensamento desordenados (fusão cognitiva, evitação experiencial) podem ser abordados pelo fortalecimento da flexibilidade psicológica — a capacidade de agir em conformidade com valores, e não em resposta à dor e ao prazer imediatos. Isso não é o relato tomista, mas não é incompatível com ele. Onde Hayes identifica a "ação baseada em valores", Tomás de Aquino identifica o exercício da razão prática sob a virtude. A estrutura antropológica que torna qualquer uma das duas intervenções significativa é a mesma: um ser capaz de autogoverno racional, e não meramente de resposta condicionada.
O que isso pede dos profissionais
Brugger encerrou a seção introdutória da palestra com uma frase que merece ser lida como um padrão profissional, e não como um floreio teórico: "Uma boa psicologia pressupõe uma boa antropologia, e aquilo que há de melhor no campo convencional da psicologia clínica é melhor porque deriva de percepções verdadeiras sobre a pessoa humana."
Trata-se de uma afirmação generosa. Não condena a psicologia secular; explica suas melhores realizações. E lança um desafio correspondente: se um profissional não consegue articular para que serve a pessoa humana, não pode definir o que é cura para além do alívio dos sintomas apresentados. As premissas antropológicas que Brugger distribuiu em 2008 — agora formalizadas e ampliadas no CCMMP — são a tentativa de fornecer esse relato que faltava.
A pessoa que entra num consultório carrega todos os oito domínios ao mesmo tempo. É um corpo com uma história, um eu relacional moldado por vínculos reais ou rompidos, um agente racional capaz de autoengano, um sujeito volitivo com liberdade real e responsabilidade real, um ser criado para algo além da evitação da dor, ferido por uma desordem real que não é meramente comportamento aprendido, e alcançável por uma graça que a terapia sozinha não pode fornecer. Tratar qualquer uma dessas dimensões como irrelevante não é neutralidade clínica. É uma escolha antropológica — e, como o exemplo de Bentham demonstra, escolhas antropológicas têm consequências que chegam até àquilo que chamamos de saúde.
Referências
[^1]: Pe. Charles Sikorski, LC, presidente da Divine Mercy University, a instituição que nasceu do Institute for Psychological Sciences; contexto biográfico a partir de registros institucionais.
[^2]: E. Christian Brugger, palestra de abertura, "Fundamentos Antropológicos da Vida Mental", Seminário de Verão do IPS, 11 de agosto de 2008. Todas as citações diretas de Brugger neste artigo são extraídas da transcrição em áudio desta palestra.
[^3]: Dean Gladys Sweeney, discurso introdutório no IPS, articulando o compromisso fundacional do instituto de tratar a pessoa humana como "uma unidade integrada de corpo e alma, criada para a relação, a liberdade, a racionalidade e o amor."